Com aquele velho buraco no peito
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
domingo, 27 de dezembro de 2020
Satírica
Já faz um tempo agora
Que me deito com Diógenes
Me comporto eu mesmo
Como o Cão
Fazia um tempo eu tentava conservar valores que eles me convenceram que eram naturais, racionais, civilizados, mas não eram nada disso
E eles convenceram até a mim
De que os sátiros eram demônios
E de que o demônio era um cão
E eu menti pois não podia suportar a idéia, de que eu era um mero animal
Pobre cão
tão natural, tão afável, tão rápido em se doar
Julgado e condenado à lâmina pela justiça dos homens
Porque julgaríamos então
O mundo natural com regras humanas
E porquê julgaríamos o homem
Com mais rigor do que julgaríamos um cão?
Porque o simples fato de sermos animais
Pode ser usado contra nós, como uma ofensa?
Quantos milênios foram necessários
Pra que essa mentira repetida
Cobrisse nossa nudez com vergonha
Ocultasse os nossos impulsos
Além de nos colocar à parte da natureza
Nos cerrando nesse terrível sentimento de animal enclausurado durante esses surtos de lucidez que muitas vezes chamamos depressão e ansiedade?
Uma vez eu vi um vira-latas entrar na igreja
Seguindo o padre que exibia O Livro Sagrado
O cão sarnento parou em frente ao altar e diante da audiência constrangida
Enfiou a cara entre as pernas e lambeu o próprio cu
Uma vez eu vi um pombo cagar na cabeça de Nero (o medonho Imperador responsável por assassinatos cruéis e massacres terríveis) como o vi fazerem na cabeça de todos os homens que se acharam importantes o suficiente pra construírem estátuas de bronze de si mesmos.
Eu que pulverizei essas convenções todas
Que sou um animal, um cão e um blasfemo confesso que ri muito dessas demonstrações frivolas, mas potentes, de que a natureza está se lixando pra gente
Nosso desejo é muito mais antigo que o casamento
Nosso sagrado é muito mais antigo que o templo mais antigo
Nós temos que reencontrar a nós mesmos!
Reencontrar a espontaneidade que nos fez autênticos
Reencontrar a liberdade que abdicamos em nome de tantas convenções
Nos aceitar, como realmente somos
E como sempre seremos
Irmãos dos cães
Sátiros nos bosques
Verdadeiros filhos de Adão
ignorantes de qualquer fruto proibido
domingo, 20 de dezembro de 2020
Arco Magno
Existe algo mágico
Nas rochas vulcânicas
Imagine uma onda forte
Que demora milhões de anos pra estourar
E naquele movimento
Em que a terra se dobra, explode erode e escorre
Mas demora tanto tempo pra isso
Que nós construímos ali, naquela dobra, nossas casinhas
Entre uma ruga e outra
Construíram um castelinho
Pra controlar o comércio
Em seus mercadinhos
Eram Etruscos, eram gregos, eram cartagineses, eram romanos, eram germânicos, eram mouros, eram normandos, eram cruzados, eram espanhóis, eram finalmente italianos e eram fascistas... Eram tantos que nem sabemos seus nomes
Nem sabemos os sons que faziam
Como eram suas músicas, suas danças, seus banquetes, seus deuses...
Lá embaixo
O mar é azul piscina, dizem que tem muito calcário
Quase não se vê areia
As pedras parecem tanto com pedras de aquário
E de pé se vê o pé
E se veem peixes amarelos e azuis nadando
Em cada grota, uma gruta
Quantas velas esses ventos inflaram
Quantos suores secaram?
Esses imperadores, esses escravos
Esses fazedores de leis
E esses piratas
Afundaram com seus tesouros?
Ou os enterraram?
Ou estão esses tesouros exibidos agora em museus
Ou guardados em bancos, do outro lado do mundo?
E pra mim é como se esse mesmo vento
Estivesse em sua milionésima volta
E ainda guardasse o eco
De tantos fantasmas
Mormanno
Algo aconteceu quando meus olhos cruzaram com os dele
Aqueles olhos amarelos
Oblíquos
Me enfeitiçaram com seus gestos suaves
O balanço da sua cauda
O veludo de seus pêlos
O silêncio de seus passos
As casas tão antigas
Abandonadas
As estrelas cintilando
A névoa escorrendo
E o vale lá em baixo
As pedras vulcânicas
Cristalizadas desafiando a gravidade
Quantos mistérios
Quanta suavidade
Quanta sabedoria
De algo selvagem
Entre ruínas de épocas esquecidas
Quantos anos tinha
Aquele gato preto?
Pra mim parecia que ele tinha chegado ali antes dos Etruscos
Tinha visto tantos povos indo e vindo
E construindo casas
Em cima das ruínas das casas
E contando histórias sobre o mundo
Em dialetos esquecidos
Com seus cheiros
Com seus sons
Sempre dentro de suas casinhas
Como se os deuses
A cada Era
Montassem um presépio diferente
Naquela montanha antiga
Nele se encerraram todos os mistérios do mundo
Um verdadeiro habitante do Sonhar
O imemorial gato preto na noite de Mormanno
com seus olhos de estrelas
domingo, 29 de novembro de 2020
Em direção ao encontro
As vezes parece
Que os gestos doces são solitários
Uma coisa que fazemos
Para sermos fiéis a nós mesmos
Para sermos auto indulgentes
Algo que está para além da nossa vontade de se encaixar
São coisas que sentimos
Que precisamos fazer
Até quando
Andando cabisbaixos
De repente
Esbarramos com alguém
A quem podemos olhar nos olhos
Sermos nós mesmos
Enquanto estamos juntos
O fogo reacende!
Os olhos voltam a brilhar!
E uma nova história linda
Fica tão perto quanto um sim
As vezes parece
Que os gestos doces são solitários
Mas estamos sempre indo ao encontro de nós mesmos
Um no outro
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
Eu tô nessa varanda na Itália
Cercado de flores
Ouvindo música
E olhando as casinhas do outro lado do vale
Como pequenas cabeças de alfinete
Dentro delas
Existem pessoinhas
Que acham que suas preocupações são grandes
Como eu aqui acho que são as minhas
E somos todos tão pequenininhos
E o tempo corre estranho
Uma hora voa
Outra hora se arrasta
E o meu sentindo
Preso aqui comigo
Viaja continentes e cruza oceanos
Pra te imaginar dançando
E na minha ilusão de ser
Esse sentimento perene
Parece tão grande, tão justo, tão bonito
Acho que a gente só existe mesmo na minha imaginação
Mas que mitologia tocante
Que deusa bonita você é
Que suspiro apaixonado
Que amor melancólico
Eu tento me inclinar pro futuro
E ver a gente junto
Mas que bobeira
Mas que bobeira importante
Pelo menos pra mim
sábado, 21 de novembro de 2020
Fogareiros queimavam em grandes caldeiras de bronze, fazendo-as reluzir com um brilho dourado ao redor do salão. Pelas persianas o oceano de areia azul, iluminado por todas as estrelas, de onde vinha sibilando o vento fresco do deserto noturno. Enquanto ali dentro na luz dourada do fogo, luziam o rosa, o verde, o azul e o vermelho, das almofadas de cetim. Na tapeçaria intrincada, um grupo de amigos se esparramava. Bandejas de prata trabalhada, com jarras de metal traziam os licores mais exóticos, como exótica também era a fumaça que bruxuleava dos narguilés. Ali os homens de olhos pintados, barbas untadas, turbantes magníficos! Discutiam astrologia, matemática, medicina - entre orgias maravilhosas com odaliscas lubrificadas e entre opióides que os levavam às estrelas. Oh quanto sabiam, quão bem viviam, quanto conquistaram; homens da Babilônia e de Persépolis. Não foi senão a inveja dos bárbaros que os empurrou ao esquecimento. Mas nas areias do tempo ainda vivem em sonhos clandestinos.
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