quinta-feira, 24 de maio de 2018

"Eu não tenho de ser o que meu pai era. Não tenho de obedecer às regras de meu pai ou mesmo acreditar em tudo que ele acreditava. É minha força como ser humano que eu possa escolher por mim mesmo aquilo em que acreditar ou o que ser e o que não ser."
-Duna

terça-feira, 15 de maio de 2018

O amor é uma doença

Eu tenho medo do dia
em que não vou conseguir resistir à tentação
e ligar pra ela
só pra receber mais um espinho no coração

acordei de um sonho com ela
e voltei a dormir
só pra sonhar outro

essa fixação não seria patológica?
não seria o "amor" uma doença?
a obsessão não merece os tratamentos mais modernos?
Ou até mesmo,
quem sabe
um exorcismo à moda antiga?

Eu
recorro ao tempo
senhor e transformador de tudo

se a Ele não resistem as estrelas do firmamento
como resistiria essa memória de você?
ainda que eu levasse esse amor comigo
para o túmulo
não teria se passado mais que uma fração da eternidade

hoje eu vim aqui
escrevi para você
num lugar em que ninguém vai me ler
hoje eu resisti
e pendurei mais um poema no móbile
reli uns antigos
tomei um café
acendi um cigarro
e ninguém além de mim mesmo foi testemunha
das minhas angústias, da minha solidão, daqueles dois sonhos bons.

Já posso vestir o sorriso.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O amor que não exige ou o amor impossível

"E o amor, em vez de dar, exige." 

"O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos [...]"


Eu sentei aqui 
enauseado 
mas já não consigo vomitar 
as palavras não entram em fila 
para serem despejadas aqui 
elas jorram de um lado pra outro 
dentro da minha cabeça 
colidindo antes de nascer 

o amor é um querer bem 
o amor é um querer estar bem 
o amor não exige nada 
mas exige tudo também 
a pessoa amada e o sentimento que emanamos dela 
são a mesma coisa 
a idealização que fazemos de uma pessoa 
e sua carne 
são a mesma coisa 
quem ama só tem olhos pra pessoa 
mas quem ama é cego também 
amar é tanto odiar 
quanto querer bem 
o amor liberta 
o amor aprisiona 
o amor dá uma razão e tira a razão 
acalma e perturba 
sossega e tira do sério 

Quando realizamos o amor 
nos sentimos completos 
mas diminuídos pelo amor realizado 
nos sentimos incompletos 

o amor é uma ficção e a única realidade de quem ama 
o amor é um jardim e uma flor 
uma montanha e um abismo 
um sol e uma lua 
o quente o frio 
suspiro choro 
beijo e lágrima 
razão loucura

e minha cabeça dá voltas e dá voltas 
e eu não sei que porra é essa 
que me dá vontade de gritar e me cala 
ela mora no meu olho 
ela é o meu ar 
o que posso exigir dela? 
o que posso merecer? 
o que eu posso afinal, fazer? 

talvez o amor mais puro, é o que nunca se manifesta
permanece sempre silenciado e intocado 
e dessa forma 
em não se realizar 
e morar nos sonhos 
ele jamais fracassa 
e a sua generosidade em prazer 
jamais humilha 
e a sua presença esmagadora 
jamais abandona 
você não me faz chorar 
se não me faz sorrir 
você não vai me abandonar 
se nunca estiver aqui 

pronto, já está resolvido 
o verdadeiro amor é o que só aconteceu no sonho 

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...
-Clarice Lispector

O amor é uma companhia.

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

-Fernando Pessoa

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Muad'Dib de Duna

Penso na alegria que é estar vivo e imagino se jamais conseguirei mergulhar interiormente até as raízes desta carne para me conhecer tal como um dia fui. As raízes então lá. Ainda que em momento algum eu seja capaz de encontrá-las, elas permanecem fincadas no futuro. Mas todas as coisas que um homem pode fazer são minhas. Qualquer ato meu pode fazê-lo.

-Frank Herbert. 

Os Dois Infinitos

Duas coisas enchem a alma de admiração e de respeito sempre renovados e que aumentam à medida que o pensamento mais vezes se concentra nelas: acima de nós, o céu estrelado; no nosso íntimo, a lei moral. Não é necessário buscá-las e adivinhá-las como se estivessem ofuscadas por nuvens ou situadas em região inacessível, para além do meu horizonte; vejo-as ante mim e relaciono-as imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira, a partir do lugar que ocupo no mundo exterior, estende a relação do meu ser com as coisas sensíveis a todo esse imenso espaço onde os mundos se sucedem aos mundos e os sistemas aos sistemas e a toda a duração ilimitada dos seus movimentos periódicos. A segunda parte do meu invisível eu, da minha personalidade e do meu posto num mundo que possui a verdadeira infinitude, mas no qual o entendimento mal pode penetrar e ao qual reconheço estar vinculado por uma relação não apenas contingente, mas universal e necessária (relação que também alargo a todos esses mundos visíveis). Numa, a visão de uma infinidade de mundos quase aniquila a minha importância, na medida em que me considero uma criatura animal que, depois de ter (não se sabe como) gozado a vida durante um breve lapso de tempo, deve devolver a matéria de que é formada ao planeta em que vive e que não é mais do que um ponto no universo. Pelo contrário, a outra ergue infinitamente o meu valor como inteligência, mediante a minha personalidade, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e até de todo o mundo sensível, pelo menos na medida em que podemos julgá-lo pelo destino que esta lei consigna à minha existência, e que, em vez de ser limitada às condições e aos limites desta vida, se alarga até ao infinito. 

Emmanuel Kant, in 'Crítica da Razão Prática'