sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Quando você chegava

Quando você chegava
eu lembro bem
aquela imagem destacada do fundo
como se não pertencesse a esse mundo

o chão não merecia seus pés
a luz não merecia seus olhos
e chamar de perfume
era reduzir o aroma dos seus cabelos

tão branca
tão branca
tão pura

e eu só queria
o que eu mais queria

era merecer

estive reduzido ao minúsculo

mas você mesmo assim vinha
e era minha
e eu te tomava nos braços
constrangido pela sua imensidão
como era bom
como era bom

agora já posso morrer
porque já fui feliz

já se disse
que de tantas eras
de tantas estrelas
na imensidão do universo e do tempo
dessas infinitudes todas

eu nasci

juntinho de você
e nossos caminhos se cruzaram

fomos dois pombinhos que se amaram
até que fomos torpes
para além do perdão

quero não
quero não

"essa dor eu não quero pra ninguém no mundo
imagina só
pra você"

"nada do que eu fui
me veste agora
sou toda gota
que escorre livre pelo rosto
e só sossega quando encontra a sua boca"
cortaram as asas do passarinho
mas ele também nunca foi bom
em voar sozinho

enfiaram criptonita no super homem
prata no lobisomem
molharam o gizmo
apertaram o botão vermelho

me vi no espelho
eu já sei
eu já sei
não gostei

"chegou a conta
aquele ponto
em que tudo
muda"

o choro embotado
faz tanto tempo
tanto tempo
que me perdi
que não sei mais quem tá aqui
morri
penado

De onde vem seu poder?
Fui eu que te emprestei?
A imagem incólume fui eu que construí?
Daqueles alvos lábios acusadores
onde me perdi.
daqueles grossos cachos
daquele perfume
que não está aqui
quantas horas se passaram?
quantos dias?
meses?
e quantos ainda faltam
pra eu ter a mim mesmo de volta?
estou com saudade


de ser feliz de verdade.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Palavra

Já escrevi
nesse diário
sobre o poder mágico que penso haver nas palavras
como nela nasce o mundo
ou se destrói
até um coração de pedra

alguns casos complicados
são um novelo embolado
e a palavra é uma pinça
que pode dali tecer
uma peça maravilhosa

existem também
palavras indizíveis
nomes de coisas terríveis
que a palavra parece atrair
doenças ou pessoas amadas
podem se encaixar aqui

as vezes uma palavra
fica enfiada como um prego na minha testa
como um ovo na minha garganta
chego a lacrimejar

mas não ouso seu nome pronunciar

as vezes duas palavras opostas
são ambas verdade
amo  odeio
bom  mau
bonito  feio
íntegro e mal caráter
em cima de um lugar
pode ser debaixo de outro

dizem que palavras são só vento
mas eu penso que não

palavras são chaves
que podem abrir um coração

eu ainda não tenho essa palavra mágica
mas talvez seja ela a solução
de arrancar do meu peito
essa maldita obsessão

queria ser Houdini pra escapar dessa prisão
mas não consigo eu mesmo diferenciar
o que é chave e o que é grilhão

prego ovo amo odeio

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um blues pra tempos estranhos

Queria poder puxar
um fio desse bolo
e conseguir transformar numa meada
Botar linearidade no disforme

Acho que o que existe primeiro é a culpa
parece mesmo que ela veio de Adão
pq eu não existia antes dela

eu também nasci do pecado

Pq o homem que pecou, morreu
e o novo homem que nasceu
ainda corre feito criança

mas vamos por partes

primeiro é preciso morrer

demolir

o sentimento mesquinho, egoísta e hipócrita
o amor burguês da pessoa-coisa

primeiro devemos aprender a desamar
pra depois amar mais e mais verdadeiramente
tirar a pessoa da caixinha que levamos sob o braço
pra colocá-la onde ela merece estar

que é junto das estrelas.

Existe o amor
que é bonito e verdadeiro
Existe o fim, desse amor cafona
E existe um outro amor
que é maior

Já estou nesse terceiro degrau
que é mais alto
mais lindo
e mais puro
e daqui posso ver o mar
e as estrelas todas

eu tenho orgulho do homem que morreu
tombou como um tolo
e eu germinei do seu cadáver
como uma flor que nasce do lixão

Agora confesso
esse lugar é solitário
pois alguns procuram o amorzinho
outros lhes viram as faces
poucos amam e amam e amam
e não debocham do amor
mas querem amar mais e mais e mais
e tem brilho nos olhos
e beijam e dançam e cuidam e guardam
sem tomar para si como se fôssemos coisas

Esses anjos iluminados que chegaram aqui
são poucos
mas os vejo na distância
são melancólicos e serenos
sempre com brilho nos olhos
sempre solitários e nunca sozinhos 
eles tem um certo fogo que lhes revolve o peito
eles me notam também
e até me beijam de vez enquanto

eu não sei porque ainda tenho
ciúmes
acho que vive dentro de mim o padrão do amorzinho
mas também convive com ele o desamor
e envolta desses modelos todos
existe o amor maior
que amadureceu
como um homem que guarda em si as memórias de sua infância

O que eu quero
busco e até ouse dizer que mereço

é alguém que também esteja aqui
que fale comigo só quando tiver vontade
e que tenha vontade quase todo dia
que me beije só quando tiver vontade
e que tenha vontade todo dia
que possa beijar e estar com quem quiser
mas que não veja necessidade disso
pois tem a mim
e eu que use toda a minha liberdade
inerente, inata e natural
para estar ao seu lado todos os dias da minha vida
pra que a gente possa parar de esfregar os corpos suados
em estranhos
e que possamos delicadamente caminhar
sensivelmente
se olhar
e sorrir com aquele brilho imenso e maravilhoso
de quem se reconhece, de amigos que se cuidam e se amam
e encontram leito nas camas mais distantes
nas viagens na lonjura
pois fizeram um do outro o próprio lar
e assim se apoiando podem mirar
mais longe
mais alto
mais fundo
por mais tempo
e quem sabe talvez até
envelhecer e procriar
como quem superou o amor pequeno
mas também
a obrigatoriedade
da solidão



domingo, 12 de novembro de 2017

Dragão

essas retinas sem brilho
ainda guardam
o brilho afiado do teu sorriso
esse frio profundo
ainda aguarda
a magia do fogo que carrega em seus quadris
deitada sobre mim
como dragão sobre o tesouro
não é serpe
nem anjo
mas algo dos dois
algoz terrível
que reinou sobre mim
e agora voa ao longe
em meus pesadelos mais doces

Sublimação

"Saudade eu te matei de fome 
Verdade eu te cerquei de longe" 
(Irene, Amarante) 


As moscas não suportam a fumaça
mas ela é minha cura pra tudo
até pra dor
de existir

e no vapor sou eu quem vai subindo devagarinho
num fio de prata
que me leva
atravessando o mar
até o outro lado do Oceano
visitando em sonho antigo
de tudo que é bonito
e imaginado

quando eu for
quero levar comigo
tudo que fui
e todos lugares por onde estive

sábado, 4 de novembro de 2017

Eu sou a rua

Ando de chinelos na chuva
ouço o murmúrio dos mendicantes
me penduro no ônibus
sou seguido à noite e aperto o passo
meu sofrimento é mais real
porque ele está de cara com o mundo
o mundo de verdade
das putas dos maconheiros

perdido em mim mesmo
nessa imensidão e vazio
eu não sei o que quero
nem o que posso querer
procurando em mim mesmo
um fio de luz
que eu possa amar

e como? como me realizar?
existe potencial
existe mérito
existe algo de bom 
nesse corpo que envelhece acelerado
e fica pasmo
diante da vida e da morte?

quantas coxas abrigaram meu calor
quantas alma penadas eu penalizei
como suportar a dor
que eu mesmo causei
e como não castigar
esse demônio que eu sou?

o que me resta?
para onde eu vou?
a espera de um anjo salvador

de joelhos machucados
curvado
chorando
de olhos cerrados
em pesadas pálpebras
como te verei
como ouvirei teus sussurros
no barulho pesado do pranto na chuva?

onde é meu lar?
onde é meu lar?
onde será que terei pouso manso?
onde será que vou chegar?