terça-feira, 5 de novembro de 2013


“Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro 

Quem é que pensa ou sente, 
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa. 

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo. 

Existo todavia
Indiferente a todos
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto 

Disputam em quem sou. 
Ignoro-os. 
Nada ditam
A quem me sei; eu escrevo.” 

Fernando Pessoa.

NADA

Nada em mim se enche
Permaneço inflado
Rubro horror de mim mesmo
Jogado contra a cara do mundo

Não me serve um anjo torto
Quanto mais olho para uma pessoa,
mais vejo seus defeitos
Você não serve pra mim
Assim como ninguém.

Deixe-me sorver teu mel
Para depois descarta-la
Tal como favo imprestável
Tu só serás o que for de bom pra mim
De resto, nada.

Meus pés cansados
Brigam e se empurram
Espalhado eu vou
De encontro ao chão
Só para sentir o gosto de terra

De longe me observas
Com teu rosto de mármore
Sem virar a face, seus olhos me seguem.
Com reprovação mede cada movimento

Estou só
Estou perdido
Estou sujo de lama até o pescoço
Estou com olhos embotados de lágrimas
Quero saber o que quero


Nesse mais um ano
Só quero viver mais um ano
Como um animal que luta pra continuar respirando e trepando.
(escrito na data de meu aniversário, em 2013)

Waking life


O homem autodestrutivo sente-se

totalmente alienado e solitário.
Ele é um excluído da comunidade.
Ele diz para si mesmo:
“Eu devo estar louco” .
O que ele não percebe é que a
sociedade, assim como ele próprio…
tem um interesse em perdas
consideráveis, em catástrofes.
Guerras, fome, enchentes
atendem a necessidades bem-definidas.
O homem quer o caos.


sábado, 19 de outubro de 2013

Nefandus

Com os olhos arregalados olhei ao meu redor
Percebi que a realidade era uma ilusão
E sob essa ilusão
Rondava uma fera terrível
Uma inteligência não humana
Que não veio deste mundo
Mas do mundo real
O mundo das aparências era como a superfície do mar e ali havia um tubarão

Senti enquanto ela se aproximava e me engolia
Seus dentes afiados retalharam minha alma
Descobri o que era a dor
e o medo.

Subitamente
Perdi toda noção de escala
O abismo se abriu pra mim
percebi-me uma pequena molécula de carbono e hidrogênio
poeira cósmica
contemplando o início
ou o fim.

A onda de energia cósmica explodindo em todas as direções
Era tão magnífica e absoluta
Que chamá-la de gigante seria resumi-la ao ridículo.
Ela varreu o abismo
E criou o cosmos

Relicário imenso de joias flutuando no vácuo.

Minha consciência percorreu nebulosas e estrelas
Vastidões infinitas

E percebi

Não há sentido por trás disso tudo
E tudo
Se deteriora à partir do momento da criação.
Surgimos do caos e seremos reduzidos ao caos
o caos dançará sobre nossos cadáveres
a morte ri de nossas ambições.

Somente o fim é uma constante
E nada tem uma essência
Que não seja a entropia e o caos.

Percebi que aquele que me predou
Libertou-me da ilusão de ordem e bondade
A desolação foi substituída por um profundo desejo

De abraçar o fim do universo
Como única fonte de paz. 





sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Arrebentação



A visão de uma onda arrebentando nas pedras
também me arrebenta

Prendendo o ar
admiro a força
que surge do nada e se move indômita
sem precisar de um propósito ou uma razão
alheia à humanidade que a percebe onda


Também viajo em sua espuma fresca
por um instante parado no ar
antes do mergulho vertiginoso contra as rochas

Mas nas onda eu só brinco de me esfolar, ser arrastado e morrer.

A visão de uma ondas arrebentando nas pedras
também me arrebenta

As ondas que arrebentam nas pedras são uma metáfora do mundo.

Findamundo

Carne feia
feia carne
me liberte

penso antes

mas percebo
a imaginação é
a carne

querendo libertar-se de si mesma.

o tempo que a mata aos poucos
anuncia sua morte definitiva
quando só poderei habitar
o sonho

dos outros.

o fim resume tudo
e não nos produz síntese
nem conselho
que nos mostre a saída
da finitude
que tudo finda.

enquanto isso
vivo
no suspiro interrompido
que respira outros mundos
esquecendo o fim
sem
jamais
adiá-lo.

arte é imaginar o infinito




sábado, 5 de outubro de 2013

Nada Mais

Se eu conseguisse parar de pensar por alguns instantes pra poder viver e deixar essa incessante vontade de te querer que me corrói por dentro e queima como fogo. Essa profunda amargura e tristeza
de saber que eu já fui sua, mas você não me pertenceu. Essa angústia que me perturba a cada instante, pensamentos que não saem da minha mente. Momentos que agora não passam de nada além de lembranças. E agora, enquanto tento dormir, um filme se passa pela minha cabeça. Cada gesto, cada detalhe, cada beijo, cada toque, cada palavra, cada olhar... Desde o instante em que te conheci, essas lembranças viraram meu tormento. Os sonhos viraram pesadelo. Uma peça pregada pelo destino. Minhas noites e meus dias se tornaram torturantes, as horas se arrastam e minha mente quase entra em colapsoQueria poder parar de pensar só por alguns instantes...
 
[fizeram estes versos para mim]