“O deus fragmentado, transformado em ar, água, terra e fogo, representa o tormento da individuação, do qual ele cria, com seu sorriso, os deuses olímpicos, e com suas lágrimas, a vida humana. Dionísio, produto do divino casamento entre o céu e a terra, é ao mesmo tempo governador clemente e homem feroz, trazendo consigo a promessa do próprio renascimento, que reunirá o mundo e acabará com a dolorosa existência limitada pela individuação” (NIETZSCHE. O nascimento da Tragédia, § 10).
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira! Nietzsche - A gaia ciência (1978: 208)
quinta-feira, 14 de julho de 2011
"Através dos portões assombrados do sono
para além do noturno abismo, tenebroso,
tenho vivido minhas vidas incontáveis
e sondado com a vista a multidão das coisas;e me debato e grito antes do amanhecer,
enlouquecido pelo medo.
para além do noturno abismo, tenebroso,
tenho vivido minhas vidas incontáveis
e sondado com a vista a multidão das coisas;e me debato e grito antes do amanhecer,
enlouquecido pelo medo.
Rodopiei com a terra em seu alvorecer,
quando o céu era só uma poeira de fogo;
e vi o bocejar do sombrio universo,
por onde giram sem propósito os planetas,
por onde giram num terror que ninguém ouve,
sem consciência, brilho ou nome."
quando o céu era só uma poeira de fogo;
e vi o bocejar do sombrio universo,
por onde giram sem propósito os planetas,
por onde giram num terror que ninguém ouve,
sem consciência, brilho ou nome."
H. P. Lovecraft.
sábado, 2 de julho de 2011
There goes my Heroe

Quando o sr. começou a escrever, houve uma reviravolta, então, com relação a essa concepção primeira e desvalorizadora da escrita? A reviravolta veio, evidentemente, de mais longe. Mas cairíamos numa autobiografia ao mesmo tempo anedótica demais e banal demais para que fosse interessante falarmos dela. Digamos que foi por meio de um trabalho longo que eu finalmente conferi a essa palavra tão profundamente desvalorizada um certo valor e um certo modo de existência.Hoje, o problema que me preocupa -e que, na realidade, não pára de me preocupar há dez anos- é o seguinte: em uma cultura como a nossa, em uma sociedade como a nossa, o que significa a existência das palavras, da escrita, do discurso? Me pareceu que nunca atribuímos importância tão grande ao fato de que, ao final de tudo, o discurso existe.Os discursos não são apenas uma espécie de película transparente através da qual e graças à qual enxergamos as coisas, eles não são simplesmente o espelho do que é e do que pensamos. O discurso possui uma consistência própria, sua espessura, sua densidade, seu funcionamento. As leis do discurso existem do mesmo modo que as leis econômicas existem.
É claro que ela marca uma conversão total com relação àquilo que, para mim, era a desvalorização absoluta da palavra quando eu era criança. Me parece -creio que consiste nisso a ilusão de todos aqueles que acreditam descobrir alguma coisa- que meus contemporâneos são vítimas das mesmas miragens de minha infância. Também eles crêem facilmente demais, como eu fazia no passado, como se acreditava em minha família, que o discurso, a linguagem, não é grande coisa, no fundo.Os lingüistas, eu sei, descobriram que a linguagem é muito importante porque ela obedece a leis, mas eles insistiram sobretudo na estrutura da linguagem, ou seja, na estrutura do discurso possível.Mas eu me pergunto é sobre o modo de surgimento e funcionamento do discurso real, sobre as coisas que foram efetivamente ditas. Trata-se de uma análise das coisas ditas, na medida em que são coisas. É isso que é o oposto do que eu pensava quando era criança.Sinto uma impressão de veludo quando escrevo. Para mim, a idéia de uma escrita aveludada é como um tema familiar, no limite do afetivo e do perceptivo, que não pára de assombrar meu projeto de escrever, não pára de guiar minha escrita quando estou escrevendo, que me permite a cada momento escolher as expressões que quero utilizar. A doçura é uma espécie de impressão normativa para minha escrita. Assim, fico muito espantado ao constatar que as pessoas tendem a enxergar em mim alguém cuja escrita é seca e mordaz.Refletindo sobre isso, acho que são elas que têm razão. Imagino que deve existir, em minha caneta, uma velha herança do bisturi. Talvez, afinal, eu trace sobre a brancura do papel os mesmos sinais agressivos que meu pai traçava sobre os corpos dos outros que ele operava. Transformei o bisturi em caneta. Passei da eficácia da cura à ineficácia da livre proposta, substituí a cicatriz sobre o corpo pela grafitagem sobre o papel, substituí o inapagável da cicatriz pelo sinal perfeitamente apagável e rasurável da escrita. Talvez seja mesmo o caso de ir mais longe ainda. A folha de papel, para mim, talvez seja como os corpos dos outros.O que é certo, o que eu senti imediatamente quando, perto dos 30 anos de idade, comecei a sentir o prazer de escrever, é que esse prazer de escrever sempre guardou um pouco de relação com a morte dos outros, com a morte de modo geral. Essa relação entre escrita e morte é algo do qual mal ouso falar, pois sei quanto alguém como [Maurice] Blanchot já falou sobre coisas muito mais essenciais, gerais, profundas e decisivas do que o que eu possa dizer agora.Eu diria que a escrita, para mim, está ligada à morte, talvez essencialmente à morte dos outros, mas isso não significa que escrever seria como assassinar os outros e realizar contra eles, contra sua existência, um gesto definitivamente mortífero que os expulsaria da presença, que abriria um espaço soberano e livre à minha frente. De maneira nenhuma. Para mim, escrever significa lidar com a morte dos outros, sim, mas, essencialmente, significa lidar com os outros na medida em que já estão mortos. De certa maneira, falo sobre o cadáver dos outros. Devo confessar que, até certo ponto, eu postulo sua morte. Falando deles, me vejo na situação do anatomista que faz uma autópsia.Com minha escrita, eu percorro o corpo do outro, faço incisões nele, levanto os tegumentos e as peles, procuro trazer os órgãos à tona e, com isso, fazer aparecer finalmente o local da lesão, o local onde reside o mal, esse algo que caracterizou sua vida, seu pensamento e que, em sua negatividade, acabou por organizar tudo o que eles foram. Esse coração venenoso das coisas e dos homens -é isso, no fundo, o que eu sempre procurei trazer à tona.Eu compreendo, também, porque as pessoas sentem minha escrita como uma agressão. Elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte. Na realidade, sou bem mais ingênuo do que isso. Eu não as condeno à morte. Simplesmente suponho que já estejam mortas. É por isso que me surpreendo quando as ouço gritar. Fico tão espantado quanto o anatomista que sentisse redespertar de repente, sob a ação de seu bisturi, o homem sobre o qual pretendia fazer uma demonstração. Bruscamente, os olhos se abrem, a boca se mete a gritar, o corpo a se retorcer, e o anatomista se espanta: "Então ele não estava morto!".Acho que é isso o que acontece comigo em relação àqueles que me criticam ou gritam contra mim, depois de me haver lido. Sempre é muito difícil para mim responder a eles, exceto por uma desculpa, desculpa que eles talvez interpretem como ironia, mas que, na realidade, é a expressão de meu espanto: "Então eles não estavam mortos!".
É claro que ela marca uma conversão total com relação àquilo que, para mim, era a desvalorização absoluta da palavra quando eu era criança. Me parece -creio que consiste nisso a ilusão de todos aqueles que acreditam descobrir alguma coisa- que meus contemporâneos são vítimas das mesmas miragens de minha infância. Também eles crêem facilmente demais, como eu fazia no passado, como se acreditava em minha família, que o discurso, a linguagem, não é grande coisa, no fundo.Os lingüistas, eu sei, descobriram que a linguagem é muito importante porque ela obedece a leis, mas eles insistiram sobretudo na estrutura da linguagem, ou seja, na estrutura do discurso possível.Mas eu me pergunto é sobre o modo de surgimento e funcionamento do discurso real, sobre as coisas que foram efetivamente ditas. Trata-se de uma análise das coisas ditas, na medida em que são coisas. É isso que é o oposto do que eu pensava quando era criança.Sinto uma impressão de veludo quando escrevo. Para mim, a idéia de uma escrita aveludada é como um tema familiar, no limite do afetivo e do perceptivo, que não pára de assombrar meu projeto de escrever, não pára de guiar minha escrita quando estou escrevendo, que me permite a cada momento escolher as expressões que quero utilizar. A doçura é uma espécie de impressão normativa para minha escrita. Assim, fico muito espantado ao constatar que as pessoas tendem a enxergar em mim alguém cuja escrita é seca e mordaz.Refletindo sobre isso, acho que são elas que têm razão. Imagino que deve existir, em minha caneta, uma velha herança do bisturi. Talvez, afinal, eu trace sobre a brancura do papel os mesmos sinais agressivos que meu pai traçava sobre os corpos dos outros que ele operava. Transformei o bisturi em caneta. Passei da eficácia da cura à ineficácia da livre proposta, substituí a cicatriz sobre o corpo pela grafitagem sobre o papel, substituí o inapagável da cicatriz pelo sinal perfeitamente apagável e rasurável da escrita. Talvez seja mesmo o caso de ir mais longe ainda. A folha de papel, para mim, talvez seja como os corpos dos outros.O que é certo, o que eu senti imediatamente quando, perto dos 30 anos de idade, comecei a sentir o prazer de escrever, é que esse prazer de escrever sempre guardou um pouco de relação com a morte dos outros, com a morte de modo geral. Essa relação entre escrita e morte é algo do qual mal ouso falar, pois sei quanto alguém como [Maurice] Blanchot já falou sobre coisas muito mais essenciais, gerais, profundas e decisivas do que o que eu possa dizer agora.Eu diria que a escrita, para mim, está ligada à morte, talvez essencialmente à morte dos outros, mas isso não significa que escrever seria como assassinar os outros e realizar contra eles, contra sua existência, um gesto definitivamente mortífero que os expulsaria da presença, que abriria um espaço soberano e livre à minha frente. De maneira nenhuma. Para mim, escrever significa lidar com a morte dos outros, sim, mas, essencialmente, significa lidar com os outros na medida em que já estão mortos. De certa maneira, falo sobre o cadáver dos outros. Devo confessar que, até certo ponto, eu postulo sua morte. Falando deles, me vejo na situação do anatomista que faz uma autópsia.Com minha escrita, eu percorro o corpo do outro, faço incisões nele, levanto os tegumentos e as peles, procuro trazer os órgãos à tona e, com isso, fazer aparecer finalmente o local da lesão, o local onde reside o mal, esse algo que caracterizou sua vida, seu pensamento e que, em sua negatividade, acabou por organizar tudo o que eles foram. Esse coração venenoso das coisas e dos homens -é isso, no fundo, o que eu sempre procurei trazer à tona.Eu compreendo, também, porque as pessoas sentem minha escrita como uma agressão. Elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte. Na realidade, sou bem mais ingênuo do que isso. Eu não as condeno à morte. Simplesmente suponho que já estejam mortas. É por isso que me surpreendo quando as ouço gritar. Fico tão espantado quanto o anatomista que sentisse redespertar de repente, sob a ação de seu bisturi, o homem sobre o qual pretendia fazer uma demonstração. Bruscamente, os olhos se abrem, a boca se mete a gritar, o corpo a se retorcer, e o anatomista se espanta: "Então ele não estava morto!".Acho que é isso o que acontece comigo em relação àqueles que me criticam ou gritam contra mim, depois de me haver lido. Sempre é muito difícil para mim responder a eles, exceto por uma desculpa, desculpa que eles talvez interpretem como ironia, mas que, na realidade, é a expressão de meu espanto: "Então eles não estavam mortos!".terça-feira, 14 de junho de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O Cão
Estive na biblioteca municipal no início da semana, onde peguei a Divina Comédia de Dante para finalmente matar minha curiosidade. Qual não foi minha surpresa, quando encontrei dobrado entre as primeiras páginas, um grande número de folhas manuscritas. Depois de passar o olho percebi que se tratava de um conjunto de anotações que tinha um tema um tanto banal, cachorros.
Talvez não fosse por acaso que aquelas folhas estavam onde estavam, porque no Primeiro Canto da Comédia, Dante achou-se num lugar descrito nos seguintes termos:
“Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. [...] E depois veio uma loba, magra e cobiçosa, cuja visão tornou minha alma tão pesada, pelo medo que me possuiu, que não vi mais esperança alguma na escalada. A loba avançava, lentamente, e me fazia descer, me empurrando de volta para aquele lugar onde a luz do Sol não entra.”
Quando Virgílio lhe aparece, não como homem, mas em forma de sombra, ele suplica: “Eu não subi o monte por causa dessa fera. Ela me faz tremer os pulsos. Ajuda-me, sábio famoso! Ajuda-me a enfrentá-la!”.
Curioso notar que estas palavras não constavam na grande compilação de referências e trechos de obras conhecidas sobre o tema. Talvez o escritor tivesse por Dante o mesmo sentimento que este tinha por Virgílio. Digo isso porque seu estilo era um tanto sombrio e de temática eminentemente mística, por assim dizer.
Enquanto lia, me perguntava, onde estão Lessie, Pluto, Scooby-doo, Snoopy, Bidu e os outros...? Mas não o fazia sem certo deboche desrespeitoso. Na verdade, achei tudo uma tremenda perda de tempo e estive prestes a jogar no lixo, mas considerei que talvez o redator pudesse querer aquelas folhas de volta.
Foi quando estava para devolver o livro que a história ganhou um novo tom para mim. Perguntei para a senhora da biblioteca se poderia me dizer qual a última pessoa a consultar o livro, ela olhou para os lados, aproximou-se de mim e me contou sobre aquele garoto.
Ele havia se matado uma semana antes de eu locar o livro. Na verdade, era tido como um garoto louco, um excêntrico. Seu rosto havia sido desfigurado por um ataque de cão, fazia seis anos. A senhora, acrescentou: “ficou completamente desfigurado e nunca recuperou a razão, quanto a mim, fico feliz que tenha morrido, assim não volta a frequentar esta biblioteca”.
O impacto dessa tragédia foi tão grande em mim, que li com atenção aquele manuscrito, que agora parecia o único legado de uma vida breve, um testemunho de seu tormento e dor.
Parecia começar pelos mais antigos relatos, Cérberus o terrível cão de três cabeças, inimigosde Zeus, que guarda a entrada do Inferno. Depois Fenrir, o temível lobo “que irá devorar Odin no Crepúsculo dos Deuses”. Nesse trecho, escreveu na margem da folha: “Cave canem ‘cuidado com o cão’ – alertava um mosaico em Popéia, porque não fui alertado?”
No Talmude eram considerados impuros por se alimentares de restos, fosse de cadáveres, fosse de lixo. Havia uma longa tradição cristã associando o cão ao demônio, especialmente cães negros. Transcreveu com detalhes sórdidos a carnificina acontecida em Loa em 1721, por um cão que os locais chamaram de “tinhoso”. Parecia emendar uma história a outra, dando-lhe um fim, quando transcreveu a ordem de Maomé para exterminar os cães.
Passava pela Literatura, que indicava um grande volume de leitura. O mais terrível deles, um cão negro, de olhos e a boca saltando fogo, sempre espreitando no escuro, ano após ano, século após século...o cão dos Baskerville.
Também fazia referências mais prosaicas, que chegavam a se diferenciar das demais, por parecerem muito banais. Uma que me levou aos risos foi o de São Guinefort, de Cornwell, um dos poucos animais a virarem santos - talvez o primeiro cão - e que teria vantagem sobre os demais assistentes de Deus, pela sua insistência e lealdade. Outro era o temível “Legião”, cão assim chamado por ter sido possuído por um número tal de demônios, no caminho do mago.
No rodapé da última folha, seus rabiscos concluíam: “Os nominalistas afirmam que passaríamos toda a eternidade sem encontrar um arquétipo, enganam-se, eu encontrei um naquele fatídico inverno de seis anos atrás”.
Talvez não fosse por acaso que aquelas folhas estavam onde estavam, porque no Primeiro Canto da Comédia, Dante achou-se num lugar descrito nos seguintes termos:
“Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. [...] E depois veio uma loba, magra e cobiçosa, cuja visão tornou minha alma tão pesada, pelo medo que me possuiu, que não vi mais esperança alguma na escalada. A loba avançava, lentamente, e me fazia descer, me empurrando de volta para aquele lugar onde a luz do Sol não entra.”
Quando Virgílio lhe aparece, não como homem, mas em forma de sombra, ele suplica: “Eu não subi o monte por causa dessa fera. Ela me faz tremer os pulsos. Ajuda-me, sábio famoso! Ajuda-me a enfrentá-la!”.
Curioso notar que estas palavras não constavam na grande compilação de referências e trechos de obras conhecidas sobre o tema. Talvez o escritor tivesse por Dante o mesmo sentimento que este tinha por Virgílio. Digo isso porque seu estilo era um tanto sombrio e de temática eminentemente mística, por assim dizer.
Enquanto lia, me perguntava, onde estão Lessie, Pluto, Scooby-doo, Snoopy, Bidu e os outros...? Mas não o fazia sem certo deboche desrespeitoso. Na verdade, achei tudo uma tremenda perda de tempo e estive prestes a jogar no lixo, mas considerei que talvez o redator pudesse querer aquelas folhas de volta.
Foi quando estava para devolver o livro que a história ganhou um novo tom para mim. Perguntei para a senhora da biblioteca se poderia me dizer qual a última pessoa a consultar o livro, ela olhou para os lados, aproximou-se de mim e me contou sobre aquele garoto.
Ele havia se matado uma semana antes de eu locar o livro. Na verdade, era tido como um garoto louco, um excêntrico. Seu rosto havia sido desfigurado por um ataque de cão, fazia seis anos. A senhora, acrescentou: “ficou completamente desfigurado e nunca recuperou a razão, quanto a mim, fico feliz que tenha morrido, assim não volta a frequentar esta biblioteca”.
O impacto dessa tragédia foi tão grande em mim, que li com atenção aquele manuscrito, que agora parecia o único legado de uma vida breve, um testemunho de seu tormento e dor.
Parecia começar pelos mais antigos relatos, Cérberus o terrível cão de três cabeças, inimigosde Zeus, que guarda a entrada do Inferno. Depois Fenrir, o temível lobo “que irá devorar Odin no Crepúsculo dos Deuses”. Nesse trecho, escreveu na margem da folha: “Cave canem ‘cuidado com o cão’ – alertava um mosaico em Popéia, porque não fui alertado?”
No Talmude eram considerados impuros por se alimentares de restos, fosse de cadáveres, fosse de lixo. Havia uma longa tradição cristã associando o cão ao demônio, especialmente cães negros. Transcreveu com detalhes sórdidos a carnificina acontecida em Loa em 1721, por um cão que os locais chamaram de “tinhoso”. Parecia emendar uma história a outra, dando-lhe um fim, quando transcreveu a ordem de Maomé para exterminar os cães.
Passava pela Literatura, que indicava um grande volume de leitura. O mais terrível deles, um cão negro, de olhos e a boca saltando fogo, sempre espreitando no escuro, ano após ano, século após século...o cão dos Baskerville.
Também fazia referências mais prosaicas, que chegavam a se diferenciar das demais, por parecerem muito banais. Uma que me levou aos risos foi o de São Guinefort, de Cornwell, um dos poucos animais a virarem santos - talvez o primeiro cão - e que teria vantagem sobre os demais assistentes de Deus, pela sua insistência e lealdade. Outro era o temível “Legião”, cão assim chamado por ter sido possuído por um número tal de demônios, no caminho do mago.
No rodapé da última folha, seus rabiscos concluíam: “Os nominalistas afirmam que passaríamos toda a eternidade sem encontrar um arquétipo, enganam-se, eu encontrei um naquele fatídico inverno de seis anos atrás”.
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